Cartas à Isabel

IV

Se te escrevo faço sem ver
as palavras correm para o bloco de notas
meus dedos agem sem aviso prévio
encontramo-nos finalmente
nessas linhas caóticas
vejo-te
a sombra, os pés,
coxas, sexo, cintura,
seios, braços, pescoço, nuca,
lábios, bochechas, olhos e cabelos
Pronto! está toda aqui
sua figura fragmentada
guardada a todo instante

é como chuva de verão
que vai e vem e sai
e chega sem querer
sem eu querer
essa é toda a verdade
não te queria brincando
entre minhas poesias
pulando de verso em verso
como a criança que mora em você

mas permanece
gotejas em mim e quando
cheia transbordo-te

te faço assim
se não vens, então te crio
se não estás, então te trago
[e fumo toda]
eu, você e todo o mundo que
fiz para nós duas
uma fantasia letal que não evito
surge espontânea e lhe sigo
obediente a cada vírgula, a cada letra,
cada suspiro.

Autora: Lídia Rocha

O último dos quatro poemas dedicados ao passado, que tem nome e sobrenome. Como é incrível chegar ao fim, pois finalmente me sinto pulando para outra página, essa em branco pronta para ser rabiscada. Este não tem imagem para ilustrar, está tudo nas palavras e nos sentimentos que não me pertencem mais, sentimentos que ficaram no último ponto do último verso da última estrofe.

Anúncios

Quinta-feira

dois de novembro
dia de todos os mortos,
nasce um feriado para todos que não foram santos,
reles mortais sem nobreza,
amontoados em uma só data,
cobertos por sete palmos de terra,
deitados eternamente em berço estreito,
lado a lado.
Autora: Lídia Rocha

Sobreposição

Flowers of the Universal Flowering, Pavel Filonov, 1916
Flowers of the Universal Flowering by Pavel Filonov, 1916
da minha janela assisto a vida que corre como um sopro entre blocos e avenidas. fingindo entender o mundo sentei-me na praça dividindo o banco com o desconhecido que lia algo sobre amor, a palavra estava no título.
as casas amarelas, os ipês roxos, o papo sobre o tempo entre um casal de idosos [na época deles não era assim]. na berlinda do ponto um trabalhador, com pouco poder e muita dor em seus bolsos furados, esperando o ônibus e carregando a finita felicidade de uma sexta-feira. que a segunda demore a chegar! o rodar da roleta, uma família de cinco, que já já chega mais um, na mesa pouco pão, pouco leite. “coloca mais água no feijão que a comadre Tereza vem visitar”.
uma barraca de churros com balões à venda, um hotel com a faixada mais antiga que qualquer história que eu pudesse contar, pombas ciscando, meu olhar voltado para tudo e para o nada. e lá vai um rapaz, numa bicicleta, apertando o freio, ufa! não colidiu com o caminhão.
fez-se noite e nós dois silêncio em meio ao mundo vadio e caótico. um casal no banco ao lado conversando suave, enquanto esquentavam delicadamente as mãos um do outro.
no tempo de passar dois trens ficamos ali calados, sem nomes, sem sobrenomes, sem fotos de perfil ou a descoberta do filme preferido, da onde viemos, para onde achamos que vamos ou somente o simples porquê de estarmos sentados ali, num banco sujo, de uma praça qualquer.
uma mulher passou e sorriu para mim, não sorri de volta. um cachorro cheio de razão corria atrás de uma bicicleta. eu ainda esperava, não sabia pelo o que. então sem que soubéssemos a cor dos olhos um do outro ou a textura da pele, sem que houvesse penetração ou declaração nos olhamos com sinceridade, ele se levantando e eu permanecendo do lado direito de pernas cruzadas, ele guardando seu livro e eu tentando bisbilhotar o restante do título nos últimos segundos que me restavam. ele disse “tchau!” e eu devolvi. meu coração sussurrou calado um “muito obrigada por passar por aqui”. e o dele nem sei se ainda bate.
Autora: Lídia Rocha
Nota da autora: Achei perdida esta crônica inspirada no conto “O Homem da Multidão” de Edgar A. Poe (1840). A semelhança entre a crônica, o conto e a ilustração é que todas tratam deste cotidiano a qual estamos habituados, mas que ainda nos causa estranhamento e/ou curiosidade. A multidão pode ser vista como una e possível de divisão, porém suas partes (as pessoas, os objetos, os resquícios de natureza, a fumaça, a poeira, as cores, o concreto) possuem poucas semelhanças. Desde a Revolução Industrial e suas consequências (o crescimento urbano acelerado) o sabor de ser um entre tantos é de se registrar. Nem de longe a humilde escritora, por um acaso eu mesma, tenta se comparar com os artistas em questão, só gostaria de pontuar esse elo entre as obras e quão enigmático é estar entre o comum desconhecido. Quem nunca se pegou questionando “quem será é aquel@ que passou pelo meu caminho?”. Bem, esse assunto dá muito o que falar.
*Caso a curiosidade aflore existem vários sites para download do conto do Poe (íntimo meu), além de muitos com discussões acerca da multidão que somos e que nos rodeia.

Cartas à Isabel

lost lovers 2.jpeg
Before by Lídia Rocha, 2017

II

Sua língua afiada encostou doce e
voraz no céu da minha boca
tornei-me objeto frágil em suas mãos
estrelas nasceram debaixo das pálpebras
e eu pude tocá-las
no olhar leste que me lançara
em meu horizonte foste sol
e em nosso calor fomos nascente

III

O rosto apoiado em uma mão
a outra com cigarro entre os dedos
as pálpebras se fecham
me conduzindo a um sonho onde
encontro com seus lábios e olhos
o timbre da sua voz rouca me dizendo
tudo o que essas mãos queriam alcançar com você
eu poderia viver mais cem anos neste sonho
onde o calor do seu abraço me desse um nó
e que desse nó meu peito tramaria um encontro
com a liberdade
voaria por céus e oceanos para trazer-te aqui
você, menina, se aninharia em meu colo
teceríamos um futuro meu, seu e o que
mais quisesse ser nosso
ainda no sonho
sonho meu, somente meu
este seu misterioso brilho que
dilata todo meu corpo dissiparia
a tempestade em mim
eu mulher te cobriria serena com um véu
que faria da tua tormenta repouso
assim lhe prometo em segredo

Autora: Lídia Rocha 

Me meto a fazer algumas colagens também e como não encontrei uma obra para ilustrar esses dois poemas da forma que eu gostaria, então fiz eu mesma. Não é nada a se levar a sério, mas ficou até formosinho.

Cartas à Isabel

Tee Corinne, from Yantras of Womanlove, 1982
From Yantras of Womanlove by Tee Corinne*, 1982

I

Como o prenúncio da Primavera
uma flor desabrochou sob meus olhos
e com a brisa noturna que
tocou meu rosto veio
seu perfume

Quando tu Flor desata a falar
mastigo tuas palavras
devoro-te a boca
e ainda assim tenho fome

Não dê esse sorriso fácil que
me esquenta o peito
não me estenda as mãos
quando te quero inteira
não chegue com voz branda ao
pé do meu ouvido
despertando as borboletas
mostre-me logo, Flor, teus
espinhos

Mas se vai embora
silenciosa pergunto-me:
o que faço eu,
vulgar poetisa,
para que o mel entre tuas pernas
escorra para entre meus lábios?

Autora: Lídia Rocha
 *  “Tee Corinne é uma das principais referências para falar sobre mulheres lésbicas nas artes visuais. Ela participou ativamente no movimento feminista dos anos 1970 e buscava publicar seus desenhos e fotografias em jornais – tanto feministas quanto nos direcionados para mulheres lésbicas. A artista também foi co-fundadora e co-editora da publicação “The Blatant Image: A Magazine of Feminist Photography” (1981-83).
      Muitas de suas imagens são explicitamente sexuais, mas, com algumas técnicas (como solarização e múltiplas exposições), ela preserva a identidade das retratadas. Além da preocupação com a visibilidade lésbica, a artista procurava incluir mulheres fora de um padrão dito tradicional: retratou frequentemente mulheres de idades variadas, não-brancas e/ou com alguma deficiência física.”    (Texto tirado da página Nítida Fotografia)

quarta-feira

Cirurgia
Cirurgia by Camila Vitório (Psyché), 2016

encarei a paisagem, lá fora nuvens em tons de granito com pinceladas metalizadas e uma chuva silenciosa começou lançando gotas prateadas por entre as frestas de aço da janela, uma névoa cobria o morro à frente e uma sombra avistada através do espelho, com olhar distante procurava seu lugar. se não fosse hoje seria amanhã, pois esse dia sempre chega. se sinto o ar frio e árido entre essas paredes, se nada aqui queima, se o calor que faz lá fora não entra, não se atreve a entrar, como ainda caem as cinzas? seriam meus cigarros espalhando seus retalhos por aí? em mosaico, estirada no cimento, me alimentando da fumaça que me resta. no reflexo dos meus olhos novamente uma paleta cinza. a voz de Nina não me faz vibrar, Um Corpo Que Cai não me atinge, o amarelo daqueles girassóis não mais brilha. tudo é familiar, mas nada é íntimo. o cachorro vem visitar, não falamos mais a mesma língua. uma figura de cabelos grisalhos caminha em minha direção, sua mão materna toca o topo da minha cabeça, acaricia meus cabelos embaraçados e tudo o que lhe dou é um sorriso pálido. “beijei uma boca, uma doce boca” gostaria de dizer. no entanto, há tantos segredos. espero por mim em algum lugar, aqui dentro, em algum lugar. atenta a um gesto, um sinal passivo ou agressivo, uma risada, um olhar rapino, porém neste banco gélido prostrado no meio de lugar algum, onde não venta, não há céu, não há chão, não há mar, não há flores, não há cores, não há sons, não há. tudo ecoa, nada se expande.

do lado de fora [eu] toquei a campainha, do lado de dentro [eu] não ouvi, do lado de fora [eu] esperei um passo, a porta se abrir, uma resposta qualquer, do lado de dentro [eu] olhando pelo olho mágico fiz de conta que ali ninguém habitava.

Autora: Lídia Rocha

Clique aqui para acessar o Instagram da artista.

 

terça-feira

Casey Gallagher
Oil on Canvas by Casey Gallagher, 2015
Esse corpo, essa caixa rígida
esse coração, essa bomba pulsante
essa mente, esse pássaro sem asas
Esse pulmão, essa janela fechada
essa pele, essa máscara flácida
essa boca, essa porta trancada
esses olhos, essas águas turvas
esse sangue, esse fluido radioativo
Essa palavra, essa faca cega
esse amor, essa carta tardia
este ser, esta moldura sem tela.
Autora: Lídia Rocha
Clique aqui para acessar o blog da artista plástica.